14/09/2007

 

Entrevista à revista TOP View

 

A revista curitibana TOP View, na edição de setembro, destaca a música. E para falar sobre a música composta para o cinema, a jornalista Melissa Medroni entrevistou este que vos escreve. Como a revista circula apenas na capital do Paraná, e a entrevista foi incorporada na matéria escrita pela jornalista, juntamente com depoimentos dos compositores David Tygel e Marcelo Torrone, achei interessante reproduzir a entrevista na íntegra, onde ela poderá alcançar um número maior de Scoretrackers. Boa leitura!

 

Qual é a função da trilha sonora em um filme?

A trilha sonora (e aqui me refiro especificamente à trilha musical) serve acompanhar as cenas e reforçar o drama, a comédia, o suspense e a ação dos filmes. Ela também pode ser descritiva, simplesmente ambiental (criando um "clima" em determinada seqüência), ou diegética, ou seja, aquela música que os personagens também podem ouvir e provêm de rádios, televisores e outras fontes que estão presentes no filme. Citando Bernard Herrmann, meu compositor de cinema preferido e colaborador habitual de Alfred Hitchcock, "A música é o cimento do filme", ou seja, ela é a essência que une as partes para transformá-las num todo. Há filmes que prescindem de uma só nota musical para serem ótimos, como Um Dia de Cão, mas sempre imagino como um filme desses poderia ser ainda melhor se tivesse um acompanhamento musical adequado. A música de um filme pode ser incidental, ou seja, uma trilha instrumental normalmente composta especialmente para ele; pode se constituir apenas de canções selecionadas por um supervisor musical; ou ainda, ter uma trilha incidental e canções (o mais comum).

 

O que é feito antes, o roteiro ou a trilha sonora?

Normalmente o roteiro vem bem antes, sendo a composição da trilha e sua gravação um dos últimos processos da pós-produção. Mas, como em qualquer processo criativo, há exceções à regra e tudo dependerá do grau de interação do compositor com o roteirista e o diretor. Muitas vezes o roteiro é escrito e a cena filmada já prevendo a utilização de determinada música ou canção – isso é muito comum em desenhos animados e musicais. Mas isso acontece também em outros gêneros de filmes. Um dos exemplos mais notórios é a trilha de John Williams para Contatos Imediatos do Terceiro Grau, dirigido por Steven Spielberg. O diretor e o compositor, que mantém uma parceria que vem desde 1974, começaram a discutir a idéia e a música desse clássico moderno da ficcção científica já durante as filmagens de Tubarão. A cena do contato final com os alienígenas foi toda escrita, planificada e filmada por Spielberg com base na partitura que Williams havia composto. Tivemos o caso recente de Tróia, no qual o compositor Gabriel Yared trabalhou quase um ano criando e adaptando a trilha sonora às filmagens e mudanças de roteiro. Todo esse esforço foi em vão, já que no final o diretor Wofgang Petersen o dispensou e contratou James Horner para compor uma trilha mais acessível e serviçal.

 

Como o som e a música eram substituídos na época do cinema mudo?

Para fornecer a música, o recurso mais comum era colocar um pianista na sala de cinema, que ia interpretando peças adequadas ao que se passava na tela. Eventualmente um pequeno conjunto e até uma orquestra eram utilizados, principalmente quando começaram a surgir as primeiras composições originais, criadas para determinados filmes.

 

Aqui no Brasil também havia orquestras e pianistas nas salas de cinema?

Sim, principalmente pianistas. Em vista dos custos envolvidos o uso de orquestra era mais raro, mas eventualmente isso acontecia. Alguns dos primeiros maestros e compositores nacionais de trilhas, já para o cinema sonoro, começaram fazendo acompanhamento de filmes mudos.

 

Como o mercado cinematográfico recebeu a possibilidade de incluir som e música nas narrativas?

A chegada do som ao cinema foi algo bem mais revolucionária do que, por exemplo, a da cor. Com o som foi possível ouvir a voz de atores e atrizes, e por causa disso várias carreiras foram encerradas. Muitas vezes a expressão corporal do ator era boa, mas sua voz ou empostação vocal eram ruins. Com a música gravada diretamente na película (ou separadamente em discos de acetado, como nos primeiros filmes sonoros) os cinemas não mais eram obrigados a empregar intérpretes, mas tiveram que investir em equipamentos de áudio. Conforme o som dos filmes era aprimorado, também esses equipamentos tiveram que evoluir. Para mim o som foi responsável por um grande avanço técnico dos filmes e salas de exibição.

 

"Fantasia", da Disney, é considerado o primeiro filme a empregar a música no cinema da forma como conhecemos hoje?

Fantasia (1939) sem dúvida foi um filme inovador em vários aspectos: linguagem narrativa, técnicas de animação, uso de música clássica na trilha sonora e introdução do som estereofônico. Mas King Kong (1933) foi o primeiro filme sonoro a trazer uma trilha incidental especialmente composta para ele (por Max Steiner), e que estabeleceu padrões ainda hoje utilizados, como a interpretação de uma grande orquestra, um tema principal de abertura e 'leitmotivs' – temas curtos para representar alguns personagens e situações.

 

Quando e de que forma as canções começaram a substituir a música erudita no cinema?

Na verdade temos canções no cinema desde o primeiro filme sonoro, O Cantor de Jazz (1927), contudo os primeiros compositores de Hollywood, maestros eruditos que foram para os EUA fugindo da opressão e da guerra que se avizinhava, estabeleceram o padrão da grande trilha sonora orquestral. Porém um dos gêneros cinematográficos mais antigos era o musical, e nele já tínhamos o predomínio de canções que acompanhavam grandes números de canto e dança. Nos anos 1950 formas de música mais populares, como o jazz e seu irmão mais novo, o rock, começaram a se integrar à música dos filmes. O que vimos a partir dos anos 1960 foi o quase abandono da grande trilha orquestral em favor desses gêneros mais populares, e não raramente as trilhas sonoras eram integradas apenas, ou principalmente, por canções. Mesmo as trilhas incidentais, quando lançadas em disco, eram regravadas para ficarem mais "acessíveis". Os LPs com trilhas de Henry Mancini, por exemplo, pouco traziam das trilhas incidentais que ele efetivamente usava nos filmes, a maioria deles trazia as canções principais e músicas instrumentais apenas inspiradas na partitura original, adaptadas de forma a serem tocadas no rádio.

 

Antes da inserção das canções nas trilhas sonoras, as trilhas eram vendidas no mercado fonográfico?

Sim. É claro que as trilhas sonoras com canções sempre venderam mais que as instrumentais, mas já nos anos 1940, na época dos discos 78rpm, foram lançadas trilhas instrumentais como a própria Fantasia e O Ladrão de Bagdá, esta composta pelo grande Miklos Rozsa e considerada a primeira trilha sonora original a ser disponibilizada em disco.

 

Quais foram os filmes que popularizaram as trilhas sonoras?

Há trilhas incidentais que, apesar de não terem sido muito vendidas (fora do círculo de fãs de trilhas sonoras, obviamente), foram provas cabais da importância da trilha sonora em um filme. Aí podemos incluir várias obras do maestro Alfred Newman, que por décadas foi o diretor do Departamento Musical da Fox. Temos também as partituras antológicas de Bernard Herrmann para os filmes de Hitchcock, das quais se sobressaem Um Corpo que Cai e Psicose. Já nos anos 1960 temos trabalhos famosos, que foram grandes sucessos de vendas, como os dos filmes de James Bond (John Barry), os do diretor Blake Edwards (Henry Mancini), A História de Elza (John Barry), Lawrence da Arábia e Doutor Jivago (Maurice Jarre), e muitos outros. Em 1968 Stanley Kubrick lançou seu clássico 2.001 – Uma Odisséia no Espaço, de longe a melhor trilha sonora que utilizou música erudita pré-gravada, e cujo álbum vende muito até hoje. Já nos anos 1970 as canções e a música pop entram com toda a força. A canção tema do filme Shaft (Isaac Hayes) ganhou o Oscar de 1971 e a partir daí os ritmos com raízes negras passaram a dominar. Os Embalos de Sábado à Noite foi o LP duplo de trilha sonora mais vendido da história, ajudando a popularizar a onda da discoteca nas pistas de dança e nas salas de cinema. O interessante é que, no final desse ciclo, John Williams compôs para Guerra nas Estrelas (1977) uma trilha sonora original no estilo dos antigos capa-e-espada de Hollywood, trazendo de volta a grande música orquestral com toda a sua glória. É impressionante como fãs da música de cinema, hoje na faixa dos 40 anos, atribuem a este trabalho (ainda hoje a trilha instrumental mais vendida de todos os tempos) o fato de terem virado "trilheiros".

 

Por que os grandes musicais não existem mais?

Por muitas décadas os musicais, juntamente com os westerns, foram considerados os maiores gêneros cinematográficos americanos. Em outros países, inclusive no Brasil, inspiraram a produção de vários filmes similares. Gozaram de muita popularidade, mas a partir de certo momento começaram a se desgastar, com reflexos nas bilheterias, que passaram a ser cada vez menores. Os estúdios de Hollywood então se voltaram para outros gêneros, deixando o campo aberto para produções internacionais. O western teve uma sobrevida nos anos 1960 e 1970 graças aos 'spaghetti-westerns' vindos da Itália, que se tornaram sucessos mundiais graças principalmente aos filmes do diretor Sergio Leone. Já os musicais não tiveram essa sorte, e os poucos filmes que foram produzidos a partir daí não tiveram boa repercussão. Nos anos 1970 tivemos algumas adaptações para o cinema de musicais da Broadway, como Jesus Cristo Superstar, Hair e mais recentemente O Fantasma da Ópera, que fizeram sucesso - mas foram exceções.

 

Qual é a situação do mercado de compositores para cinema no Brasil?

Infelizmente não é muito promissora. Acredito que isso se deva principalmente ao conceito que nossos diretores têm de como deva ser a música dos filmes brasileiros. Esse panorama ficou bem claro nos painéis que ocorreram no '1º Música em Cena – Encontro Internacional de Música de Cinema', evento ocorrido em maio no Rio de Janeiro e do qual o ScoreTrack.net foi um dos promotores. Num dos painéis o diretor Cacá Diegues disse que músicos como Caetano, Gil e Chico podem ser considerados verdadeiros compositores de cinema – ora, isso não é verdade, já que eles são cancioneiros populares que eventualmente criam para o cinema. Verdadeiros compositores de cinema brasileiros são profissionais como David Tygel, Marcus Viana, Antonio Pinto (este até com trabalhos nos EUA) e o veterano Remo Usai, que de fato se dedicam a construir uma carreira através de trilhas incidentais. Mas infelizmente o pensamento de Cacá parece ser dominante, o que acaba reduzindo o mercado de trabalho para novos compositores daqui que efetivamente queiram se dedicar ao cinema. E que já na faculdade de música são estigmatizados, uma vez que no meio acadêmico há um grande preconceito em relação à trilha sonora. Espero que iniciativas como o 'Música em Cena', que trouxe ao Brasil nomes internacionais importantes como Ennio Morricone (que abriu o evento com um antológico concerto no Theatro Municipal do Rio), Gustavo Santaolalla (ganhador de dois Oscars consecutivos pelas trilhas de O Segredo de Brokeback Mountain e Babel) e Lisbeth Scott (cantora e instrumentista que interpretou canções em filmes como A Paixão de Cristo, Cruzada e Munique), permitam valorizar mais a trilha sonora no Brasil.

 

Se você tivesse que fazer uma lista das cinco maiores trilhas de todos os tempos, quais seriam?

Sempre é complicado fazer uma lista dessas porque o autor sempre tende a valorizar as trilhas que mais gosta pessoalmente, ou ainda as que se destacaram recentemente. Vou tentar ser o mais objetivo possível, salientando que o que chamaríamos de "as maiores trilhas sonoras de todos os tempos" são bem mais que cinco. As trilhas obedecem a uma ordem cronológica, e não obrigatoriamente a uma ordem de importância:

 

1 – KING KONG (King Kong, Max Steiner, 1933) – Primeira trilha sonora especialmente composta para um filme sonoro que incorporou recursos operísticos, adaptando-os à linguagem cinematográfica;

 

 2 – UM CORPO QUE CAI (Vertigo, Bernard Herrmann, 1958) – Da longa parceria entre o diretor Alfred Hitchcock e Herrmann, este trabalho repleto de dramaticidade e romantismo é sem dúvida o melhor (chega perto: PSICOSE, 1962, também de Herrmann);

 

3 – DA TERRA NASCEM OS HOMENS (The Big Country , Jerome Moross, 1958) – A trilha sonora para este western é estupenda, a começar pelo tema inesquecível que introduz a música que melhor celebrou, no cinema, os construtores da nação norte-americana (chega perto: A CONQUISTA DO OESTE, Alfred Newman, 1962);

 

4 – BEN HUR (Ben Hur, Miklos Rozsa, 1959) – Rozsa, um dos maiores compositores do cinema, compôs para este filme de William Wyler a melhor trilha sonora épica de todos os tempos, e que também possui forte cunho religioso (chega perto: EL CID, 1961, também de Rozsa);

 

5 – GUERRA NAS ESTRELAS (Star Wars, John Williams, 1977) – Williams compôs para esta revolucionária aventura de ficção científica uma grande trilha sonora orquestral que resgata, e até supera, os trabalhos de Erich Wofgang Korngold para os antigos filmes de capa-e-espada.