Bem-vindo à elite - ainda que atrasado sob vários aspectos
Finalmente, o discutido filme TROPA DE ELITE entrou em cartaz nos cinemas de todo o país, após já ter feito uma carreira de sucesso nas bancas de camelôs. Muito tem se falado a respeito da pirataria que possibilitou a divulgação de cópias do filme meses antes da estréia, e nem quero entrar nessa discussão. O problema já está aí há anos e o que agora temos é mais uma conseqüência dele. Já as acusações de que o filme é fascista por mostrar uma realidade que faz parte da rotina de um esquadrão especial da polícia militar do Rio - o BOPE - merecem um pouco mais de atenção. Afinal, como diz o próprio diretor José Padilha, o que está errado é a mensagem, e não o mensageiro.
O que pouca gente se dá conta é que, polêmicas à parte, TROPA DE ELITE é um marco na história do cinema brasileiro, contraditoriamente por possuir méritos que são a prova cabal do atraso da produção cinematográfica nacional em relação ao que é produzido lá fora. Já em 1971, o diretor Don Siegel colocou nas telas o primeiro filme da série Dirty Harry (no Brasil, PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL), no qual o inspetor da polícia de São Francisco Harry Callahan (Clint Eastwood) usava métodos não-ortodoxos para combater o crime. Traduzindo: violência e tortura. Como agora, o filme foi muito criticado, igualmente acusado de ser fascista e de apregoar a violência policial.
Também não quero me aprofundar muito nisso, deixo a tarefa para aqueles que adoram abordar esses assuntos sob um ponto de vista sócio-político-cultural-esotérico. Só acho que entre fazer a apologia do "olho por olho" e simplesmente mostrar a realidade das forças policiais do país, atingidas pela corrupção e a falta de mínimos recursos para agir, que têm de enfrentar o que hoje é uma guerra contra uma verdadeira máfia muito bem armada e organizada, há uma grande diferença.
O que realmente me interessa é apontar o fato de que, com TROPA DE ELITE, finalmente e com um grande atraso, temos no cinema um produto nacional bem acabado tecnicamente, que mesmo saindo fora do padrão "Xuxa/Trapalhões/dramalhão/filme sobre a ditadura" tem poder de fogo para ser um verdadeiro campeão de bilheterias e méritos para ser bem recebido pela crítica. Até que enfim nossos cineastas estão aprendendo a fazer um tipo de filme que nosso público quer ver - público que está habituado a procurar produções internacionais para isso. Porque não se iludam, analisado friamente TROPA DE ELITE não tem nada de original. Afinal, agentes da lei violentos e com problemas pessoais já vimos inúmeras vezes em filmes e séries de TV norte-americanos.
O charme da coisa é termos essa tradição cinematográfica transplantada para a realidade nacional, num longa-metragem de alta qualidade técnica (sou da época em que entender os diálogos num filme brasileiro era uma missão quase impossível), com cenas de ação impecavelmente realizadas e com um elenco de primeira. Wagner Moura está perfeito no papel do problemático Capitão Nascimento, e os colegas de elenco defendem com garra seus papéis. Só acho que o filme é sério demais, há pouquíssimo espaço para momentos de descontração e o humor, quando chega, decorre da brutalidade física e psicológica que acontece no treinamento dos candidatos ao BOPE, sem esquecer da saraivada de palavrões que ouvimos durante praticamente toda a projeção.
Mas enfim, parece que agora temos um filme impecável capaz de atender a grande parcela de um mercado que habitualmente busca produtos similares estrangeiros, que está interessado acima de tudo em assistir a um bem feito filme de ação. Mesmo que, no caso, os métodos utilizados por mocinhos e bandidos não sejam muito diferentes. Seja bem-vindo, TROPA DE ELITE. Demorou mas chegou.

