19/05/2006
Bananas
Vocês devem se lembrar da polêmica de uns anos atrás, quando um episódio dos Simpsons mostrou o Rio de Janeiro como um lugar de sambistas semi-nuas e ruas dominadas por pivetes e... macacos. Bom, há pouco tentaram criar outra polêmica, por causa do episódio da série The Unit, que mostra uma equipe norte-americana subindo os morros do Rio, em busca de mísseis que um traficante havia roubado para vender a terroristas do Oriente Médio. Para arrematar, no final do episódio, um menino favelado, vestindo a camisa da Seleção, pede para o Dennis Haybert (conhecido aqui por ter sido o Presidente Palmer em 24 Horas) que o leve junto para os EUA... ora, grande coisa. Se eu visse o Dennis na minha frente, pediria a mesma coisa!
Mas desta vez não houve polêmica, até porque os recentes atos de terror, patrocinados pela organização criminosa PCC, demonstraram que a realidade do país consegue ser pior do que qualquer ficção estadunidense. E que o país merece a péssima imagem que possui no exterior. Com a criminalidade que era endêmica em determinados pontos se alastrando pelo país, ficam no ar para o pobre cidadão (vítima, na realidade) as perguntas: até quando? o que fazer? A verdade é que a resposta da "até quando" é um mistério, já a da "o que fazer" é do conhecimento de muita gente, dependendo apenas de vontade política. Afinal, se o país está hoje afundado na anarquia, no crime, na sonegação e na corrupção, devem ser atacadas as suas causas, que vão desde a pobreza de considerável parte da população, até a certeza da impunidade dos representantes das classes mais abonadas. O que fazer? O Governo tem que investir no cidadão, na sua educação, em sua saúde, na sua segurança. Tem que aplicar uma política de desenvolvimento que dinamize nossa economia, de forma a gerar empregos suficientes para minorar a exclusão social. Tem que fazer uma revisão completa nos sistemas judiciário, penal, tributário e eleitoral, reformas que há anos se arrastam no Congresso Nacional sem avançar.
Mas alguém poderá dizer que as coisas não estão tão ruins, a economia do país vai bem, somos auto-suficientes em petróleo... pois o Brasil só não está pior porque a economia mundial até agora estava bem como um todo, não havia crise e os países em desenvolvimento mais importantes cresceram num ritmo muito maior que o nosso. Falar em China, Índia, México e no nosso vizinho Chile já virou clichê (o pior é que as primeiras nuvens já surgem no horizonte, e o nosso país perdeu a chance de crescer neste período de calmaria). Na verdade, o Brasil só é auto-suficiente em petróleo porque cresceu pouco, se tivesse crescido no mesmo ritmo dos nossos "concorrentes" a auto-suficiência ainda levaria anos para chegar. Aliás, o consumidor não leva vantagem nisso, já que não houve redução no preço dos derivados do petróleo porque a Petrobrás tem que ter recursos para continuar prospectando em grandes profundidades.
Enfim, sabemos o que tem que ser feito. Os políticos sabem. O problema é que para chegarmos a um acordo nacional que viabilize todas as transformações necessárias, precisamos de um líder verdadeiro, não mais um sujeito que venha com seu discurso populista à Evo Morales e Hugo Chavez, com suas políticas paternalistas; mas um grande e íntegro estadista que lidere as mudanças de que o país precisa para investir prioritariamente no bem estar de sua população, erradicando ou pelo menos deixando a níveis toleráveis a pobreza e a criminalidade. O problema é que esse líder, se existir, ninguém sabe onde anda - certamente não está em Brasília. E até que ele apareça, o Brasil não será um país real: continuará sendo uma mundialmente reconhecida República de Bananas, para gáudio daqueles poucos que lucram com isso.
12/05/2006
Sobre MI3, ou de como nada se cria...
Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que gostei bastante de Missão Impossível 3, de longe o mellhor filme da trilogia, e também que há tempos acompanho e aprecio muito o trabalho televisivo de seu diretor/roteirista J. J. Abrams, o mesmo de Alias e Lost. Contudo, a consagração de público e crítica de MI3 me leva a algumas reflexões sobre o marasmo que o cinema de entretenimento hollywoodiano vinha passando até agora.
Reza a lenda que Tom Cruise escolheu Abrams como diretor após assistir a primeira temporada de Alias . Se isso de fato aconteceu, foi uma jogada esperta de Cruise, já que a maioria dos produtores e realizadores do cinemão atual fecham os olhos ao óbvio e insistem em despejar os mesmos montes de porcarias nas telas. A obviedade no caso é que Alias era uma ótima reciclagem dos filmes de espionagem e da própria série original de Missão Impossível. Uma série de TV com uma forte linguagem cinematográfica inserida nos elementos próprios de um programa de televisão mais tradicional - por exemplo, a vida familiar e romântica da espiã Sidney Bristow (Jennifer Garner). Era portanto óbvio que Abrams seria um diretor adequado para comandar a nova aventura da Impossible Mission Force, e Cruise teve o mérito de render-se a esta clara evidência.
Feito e lançado o filme, sem surpresa os fãs de Alias sentiram-se como que assistindo a um episódio super-produzido da série de TV, com todas as suas características básicas: um espião que trabalha para uma agência secreta e que esconde de seus entes queridos a verdadeira natureza de seu trabalho, um chefe que pode ser um vilão, outro chefe que quebra as regras para ajudar seu agente fugitivo, o interesse romântico que sofre as conseqüências de suas ações, as missões em vários locais do mundo, os disfarces, a equipe que inclui um engraçado nerd que arrisca seu emprego para ajudar seu colega e amigo... e é claro, um recurso utilizado em alguns dos melhores episódios de Alias: a aventura já começa num momento decisivo da trama, e o que vem depois é um longo flashback, uma eletrizante corrida contra o tempo (à la 24 Horas) que levará o espectador, no final, à resolução do cliffhanger do início. Como bem dito pelo Ailton Monteiro em sua crítica no site, com inverossimilhança, mas acrescento: bem longe das "viajadas" de John Woo em MI2.
Mesmo com elementos conhecidos como esses, Abrams é tão competente que entregou um ótimo produto, capaz de agradar até aos já familiarizados com seu trabalho, ainda que muitos irão dizer que há episódios de Alias melhores que esse MI3 (e acredite, há). E para quem não o conhecia até agora, o filme é uma aventura empolgante que sinaliza o futuro promissor do jovem Abrams como diretor de cinema. De qualquer maneira, tudo isso leva ao ponto de reflexão: os filmes do gênero hoje são fracos não apenas por seguirem fórmulas à exaustão, mas também por seguirem as fórmulas erradas, e ainda por cima entregando as produções a realizadores que não sabem enxergar o óbvio. Claro que esta não é a primeira vez que Hollywood busca inspiração na sua irmã mais nova (a própria franquia Missão Impossível é prova disso), mas o grande sucesso do filme é a clara demonstração de que essa retroalimentação nunca foi tão necessária. Hoje, há todo um manancial de talentosos criadores na televisão norte-americana que poderia, sem dúvida alguma, ser utilizado para injetar sangue novo na telona. Ainda que esse sangue, de uma forma ou outra, seja reciclado.
Por falar em reciclagem, isso pode se aplicar também à carreira do competente Michael Giacchino, compositor habitual de Abrams. Giacchino iniciou sua carreira reciclando o som de John Williams em games da série Medal of Honor, inspirada em O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg; em Alias, suas trilhas muitas vezes soavam como as dos filmes de 007; seu primeiro score para o cinema foi Os Incríveis, uma recriação quase perfeita das trilhas de John Barry para James Bond, e em MI3 fez um trabalho admirável com os temas originais do maestro Lalo Schifrin (e também com suas composições próprias, sejamos justos). Prova de que às vezes, apesar do "nada se cria, tudo se transforma", se houver talento o resultado final pode ser atraente e até, no que parece ser uma contradição, criativo.
Mesmo assim, às vezes se poderia não apenas reciclar, mas apelar para o original mesmo, quando disponível. O setentão Lalo Schifrin ainda está vivo e trabalhando, bem que a partitura do provável MI4 poderia ser entregue a ele. Afinal, a reciclagem pode até ter um bom gosto, mas nunca será melhor que o original.
1º/05/2006
Prêmios, Promoções do ScoreTrack e outras coisinhas
Leitores, espero que todos vocês tenham tido um ótimo feriadão de 1º de maio. Ou pelo menos aqueles que não trabalharam, porque aqui no ScoreTrack suamos a camisa para colocar no ar, de sábado até hoje, várias novidades. É só conferir: uma nova prévia de um filme ainda inédito em "Primeira Impressão", uma nova edição da coluna "Sci Files", duas novas resenhas de DVDs, três novas resenhas de trilhas sonoras (a de LORD OF WAR marca a primeira colaboração para o site do músico Carlos Alberto Bissogno, bem-vindo à turma!)...
Mas além disso, divulgamos também o resultado do ScoreTrack Award, que como vocês sabem resulta de uma votação promovida para escolher qual foi a Melhor Trilha Sonora Original de 2005. A votação ocorreu no site, aberta a qualquer visitante/leitor; e no fórum de discussões, restrita aos usuários cadastrados. Como obtivemos vencedores diferentes no site e no fórum, resolvemos conceder dois Prêmios: o Reader's Choice (voto popular do site) e o Editor's Choice (voto qualificado do fórum). Deste modo, encerradas as votações, os vencedores do I ScoreTrack.net Award foram James Newton Howard por KING KONG (Reader's Choice) e John Williams por MEMOIRS OF A GEISHA (Editor's Choice). Enviamos aos compositores, por e-mail, certificados digitais do prêmio, que reproduzimos em escala reduzida no site. Esperamos que os recebam, já que, como eles não tem e-mail público, tivemos que enviá-los para entidades que os representam. No dia 22 deste mês o programa "CINEMUSICORIUM", dedicado a trilhas sonoras e apresentado por Vasco Otero na Rádio Universidade de Coimbra, todas as segundas-feiras das 20h às 21h, no horário de Portugal (das 16h às 17h, pelo horário de Brasília), terá uma edição especial dedicada à nossa premiação. Para ouví-lo online vá até http://www.ruc.pt.
Por último, mas não menos importante, também já está online nossa primeira promoção de distribuição aos leitores de brindes exclusivos relativos à Música de Filmes. Este projeto é uma forma de agradecer aos Scoretrackers por prestigiarem há quase sete anos o nosso site, e se tudo der certo, teremos uma promoção destas por mês. Quem enviar até o dia 31/05/2006 a resposta correta à pergunta feita, concorrerá aos CDs importados das trilhas sonoras de CAPOTE e A MARCHA DOS PINGÜINS. Portanto, se você quiser concorrer a um CD exclusivo do ScoreTrack, não perca tempo: clique no link que está na nossa página inicial, leia as instruções e mande seu e-mail. Boa sorte!
