14/06/2007
PERDIDO NA ILHA
Ainda de ressaca por causa do Música em Cena, andava sem tempo e (principalmente) inspiração para escrever estes editoriais. Até que um fato ocorrido semana passada me motivou a voltar, e com um assunto que ainda não tratara por aqui: uma série de TV. O fato em questão foi ter assistido ao episódio da terceira temporada de Lost intitulado "Exposè", que até prova em contrário marca a despedida de Rodrigo Santoro da série. Aliás, se você pretende assistir essa temporada só na Globo ano que vem (e aposto que as chamadas vão destacar a "marcante" participação do ator brasileiro), pare de ler por aqui mesmo.
A coisa desandou quando J. J. Abrams, após ser contratado pela Paramount para dirigir filmes, abandonou a produção. Mas só notei que havia mesmo algo errado quando os produtores afirmaram peremptoriamente que Lost não era uma série sci fi, quando ali está cheio de coisas que só a ficção científica pode explicar. No final da segunda temporada já achava que a série era um claro exemplo do mal que pode fazer o sucesso, mas nesta terceira até achava que as coisas estavam melhorando. Isso até chegar a este episódio, uma das coisas mais estapafúrdias que já vi na TV em muitos anos. Nem tanto pelo episódio se visto isoladamente (o que é impossível, dada a estrutura da série), mas pelo que aconteceu nos anteriores. Então, temos que voltar ao início da temporada, mais precisamente ao final do terceiro episódio, quando os personagens Nikki (Kiele Sanchez) e Paulo (Rodrigo Santoro) "caíram de pára-quedas" na ilha, sem nunca terem aparecido antes. A justificativa seria os roteiristas estarem reservando um papel relevante para o novo casal nesta temporada, apesar de suas aparições sempre serem esparsas e com poucos diálogos (principalmente de Santoro). Mas os episódios foram passando, e ambos pouco fizeram até chegarmos a este, onde o casal finalmente ganha o primeiro plano - mas certamente de uma maneira que o Santoro e a Sanchez não gostariam.
Aliás, se fosse eles, ao ler esse roteiro teria mandado todo mundo se catar e ido embora. Para começar, os dois são transformados num casal de golpistas assassinos, numa trama que mistura flashbacks de antes e após acidente, quando já na ilha se tenta passar a impressão de que, apesar de pouco terem aparecido na tela, eles andavam ocupados e interagindo com alguns dos personagens principais. Isso até teria tido alguma valia se não fosse o final patético em que ambos, paralisados pelo veneno de um tipo de aranha que vive na ilha, são dados como mortos - e enterrados vivos! Os roteiristas deram aqui uma dupla prova de incompetência - primeiro ao introduzir os personagens e não saberem o que fazer com eles, e depois por terem decidido se livrar deles de uma forma no mínimo risível, mas que é mais do que isso, é desprezível. Não sou fã do Santoro nem nada, mas fizeram o cara e sua colega pagarem o maior mico das suas carreiras, espero pelo menos que o cachê e as férias no Havaí tenham compensado.
Na verdade isso expõe o verdadeiro "segredo" de Lost - os caras introduzem personagens, elementos e tramas sem saber no que tudo vai dar, na linha do "isso não faz nenhum sentido, mas depois a gente dá um jeito". Os espectadores, iludidos, pensam que os caras já estão com tudo esquematizado, e que na hora certa tudo se resolverá satisfatoriamente. Esperem sentados... o problema de Lost é que, conceitualmente, ela deveria ser uma mid-season, ou no máximo, ter só uma temporada cheia. Mas fez tanto sucesso que já estão enrolando na terceira temporada, e pior - já anunciaram que a série vai ter seis temporadas!
Enfim, enquanto ainda der um ibope razoável, o baile na "ilha dos birutas", cheia de produtores e roteiristas tão perdidos como o nome da série, vai continuar. Até agora tenho assistido a Lost mais por teimosia, mas depois de 24 Horas acho que ela será a próxima que vou riscar da minha programação.

