07/04/2006
B de Boscov
Tomei uma decisão radical esta semana: depois de mais de duas décadas como assinante da revista semanal Veja, resolvi que não vou renovar minha assinatura. Simplesmente não suporto mais que 2/3 da revista sejam dominados pela discussão política - e tendenciosa, o que acaba comprometendo a legitimidade, por exemplo, as muitas denúncias de corrupção no governo Lula. Isto, diga-se de passagem, não é exclusividade da Veja, os outros veículos concorrentes já enveredaram pelo mesmo caminho há tempos, o que muda apenas é a orientação adotada. Mas a gota d'água da minha decisão não foi nem isso. Acontece que, após vencer os tais 2/3 de politicagem, finalmente cheguei na seção de cinema, e lá encontro mais uma pérola da crítica de plantão deles, a Isabela Boscov. Esta mesma criatura, ano passado, gastou várias páginas da revista (deve ser terrível para ela ser obrigada a escrever por um número x de páginas, determinado pela redação, sobre um filme que não gosta) desenvolvendo a tese de que Star Wars não é cinema, apesar de levar centenas de milhares de pessoas de todo o mundo às salas de exibição. Aliás, para ela estas pessoas nem são espectadores ou cinéfilos, mas sim "fãs de Star Wars", o que certamente as coloca em outra espécie evolucionária. Duplo preconceito: contra os blockbusters e Jedis - anotado.
A bola da vez da Srª Boscov é V de Vingança, produção dos irmãos Wachowski (os criadores da trilogia Matrix, aqui apenas roteiristas e co-produtores) dirigida por James McTeigue que entra em cartaz hoje no Brasil. Tentando manter o padrão dos 2/3 anteriores da revista, ela dá um tom político ao seu texto e falha em atender aos requisitos básicos de uma crítica: se, afinal de contas, acha o filme bom ou ruim, se ele pode agradar ao leitor/espectador, etc. Sob um viés politicamente correto, ela é mais uma que se apavorou pelo fato do filme trazer como protagonista um "terrorista mascarado", V (o soberbo Hugo Weaving, o Agente Smith de Matrix, com o rosto sempre coberto pela máscara do antigo radical inglês Guy Fawkes), que em luta contra um regime fascista na Londres de 2020, pretende explodir o Parlamento britânico. Crianças, este é um mal exemplo, não façam isso em casa... ela acha que o filme é datado, ultrapassado, por propor uma crítica ao "Sistema" - no caso, uma ditadura capitalista. Daí ela assume as dores da democracia e do capitalismo, e ataca o filme dizendo que ele não poderia ser feito em países como China e Cuba. Como se o filme defendesse o comunismo ou ditaduras, minha nossa... É tanta a baboseira que ela passa ao largo da essência da discussão que é realmente válida: a defesa da liberdade e a luta contra a repressão, a intolerância, as ditaduras - sejam elas de esquerda ou direita.
A Srª Boscov é uma ferrenha crítica de filmes que considera tão somente caça-níqueis, vazios de conteúdo. E ela não deixa de ter razão em vários casos, já que a indústria de Hollywood nunca foi tão pródiga em produzir porcarias como hoje. E exatamente por isso, um filme como V de Vingança, independentemente de outras qualidades ou defeitos, deve ser elogiado e prestigiado: é um dos raros filmes-pipoca atuais que tem coragem de provocar, apresentar idéias (concordar com elas é outro departamento), de fazer com que o pessoal que está lá, no "escurinho do cinema", pense - nem que seja um pouco. Certo, o filme vem provocando polêmicas mesmo antes de estrear - após os atentados a bomba ocorridos ano passado em Londres, seu lançamento foi adiado para 2006, e o próprio Alan Moore, autor da graphic novel na qual o filme se baseia, pediu para ter seu nome retirado dos créditos. Mas isso não justifica que, risivelmente, a crítica de plantão o considere uma ameaça, ainda que tardia, ao sacrossanto neoliberalismo, ao tal "Sistema". O filme até pode retomar um discurso que teve seu auge há 30 anos, mas o fato é que sua fonte é uma obra do início dos anos 1980, quando a Inglaterra tinha um governo ultra-conservador e ainda havia ecos de produções cinematográficas da década anterior. Filmes que, sob o manto de "críticas ao Sistema", acabaram virando clássicos em gêneros diversos, tendo em comum um protagonista que burla o status quo para fazer o que acha certo, justo. Este caráter panfletário, de contestação, continua e continuará sendo atraente para os jovens.
Mas nada disso interessa à Mrs. B, que prefere passar ao leitor informações "de extrema relevância", como a de que um dos irmãos Wachowski é travesti - mais um preconceito: anotado. O texto em questão é tão ridículo que já me provocou duas reações: a de escrever este editorial e a de decidir não assinar mais a Veja. Já chega as porcarias que leio diariamente nos jornais, e o que realmente me interessa procuro na internet. Ao final, só me resta agradecer por viver numa democracia que acolhe filmes como V de Vingança, e que permite à Mrs. B ter toda a liberdade para escrever as primeiras asneiras que lhe vêm na cabeça. A propósito, achei o filme excelente. B de Besteira, B de Boscov. Deveras!
1º/04/2006
ScoreTrack.net Award e Primeira Impressão
Scoretrackers, o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original foi conquistado pelo trabalho de um argentino, que foi composto para um filme sobre dois cowboys gays. E no momento em que escrevo este editorial, um astronauta brasileiro orbita a Terra a bordo da Estação Espacial Internacional (sim, depois de muita insistência conseguiram mandar o Brasil para o espaço... literalmente). Sinais dos novos tempos? Ou sinais de que o FINAL dos tempos se aproxima?
Seja como for, apesar de hoje ser 1º de abril, o dia dos bobos, e de ter iniciado este editorial de forma claramente satírico-humorística, o assunto de hoje é sério. O ScoreTrack, ao longo de sua existência, realizou algumas votações do tipo "Qual o Melhor Compositor da Atualidade" (Vencedor: John Williams), "Qual o Melhor Compositor da Golden Age" (Vencedor: Bernard Herrmann), e por aí vai. Por sugestão do colaborador Jarbas Abdala, decidi retomar este hábito salutar, mas desta vez com um caráter mais pomposo: com o nome de ScoreTrack.net Award, os leitores e colaboradores votarão naquela que consideraram a Melhor Trilha Sonora Original de 2005. Após uma pré-seleção realizada em nosso Fórum, os dez concorrentes finalistas são:
BATMAN BEGINS – Hans Zimmer, James Newton Howard
HARRY POTTER AND THE GOBLET OF FIRE – Patrick Doyle
KING KONG – James Newton Howard
MEMOIRS OF A GEISHA - John Willliams
MUNICH - John Willliams
PRIDE AND PREJUDICE – Dario Marianelli
SIN CITY – John Debney, Graeme Revell, Robert Rodriguez
STAR WARS EPISODE III: REVENGE OF THE SITH - John Willliams
THE BROTHERS GRIMM - Dario Marianelli
THE CHRONICLES OF NARNIA: THE LION, THE WITCH AND THE WARDROBE – Harry Gregson Williams
Aquele score que for o mais votado concederá ao seu compositor um certificado digital, que lhe enviaremos por e-mail. Originalmente pretendia fazer um troféu de ouro, organizar uma cerimônia e convidar os compositores para virem ao Brasil com todas as despesas pagas, mas por alguma razão insondável meus planos fracassaram e a premiação terá de ser virtual mesmo.
Então é isso pessoal, a coisa é séria. Que Oscar que nada, a verdadeira Melhor Trilha de 2005 será aquela que vocês escolherem, portanto exerçam seu sagrado direito de voto! Podem fazê-lo através do tópico específico de nosso Fórum de Discussões, ou então através do link que está em nossa página inicial. Na verdade são duas enquetes separadas, uma para quem já é cadastrado no fórum, outra para aquelas centenas de visitantes diários que não estão cadastrados - e, pelo jeito, nem querem estar. Obviamente confio na ética dos Scoretrackers, no sentido de que todos votarão apenas em uma das enquetes. Quem trapacear passará um vergonhoso atestado de falta de ética e, caso o Apocalipse realmente esteja próximo, arderá nas chamas do Inferno ao lado de figuras como Marcos Valério, José Dirceu, Bush e Bin Laden.
Ah, e por último mas não menos importante: o ScoreTrack está com uma nova coluna, a cargo do nosso valoroso Lucas Vandanezi: Primeira Impressão, onde ele dará prévias de filmes que assistiu em primeira mão, e que em breve estarão em cartaz nos cinemas. Boa leitura, e bom voto!
